segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A Pequena Vendedora de Fósforos

Estava terrivelmente frio, nevando, e começava a escurecer; era, também, a última noite do ano, véspera de Ano Novo. No frio e na escuridão, passou na rua uma pobre garotinha, com a cabeça descoberta e pés descalços; sim, ela certamente tinha chinelos quando saiu de casa. Mas o que podia fazer? Os chinelos eram muito grandes , haviam pertencido a sua mãe, de tão grande que eram, e perdera-os, pouco antes, quando atravessara a rua, correndo, para evitar duas carruagens que passavam velozmente; um chinelo estava longe de ser encontrado e o outro fora levado por  um menino, que disse poder usá-lo como berço, quando tivesse filhos. Assim, a garotinha caminhava sobre seus pezinhos nus, que, por causa do frio, estavam bem vermelhos e azuis. Em um velho avental, carregava um pacote de fósforos, e tinha um monte deles em sua mão; durante todo o dia, ninguém lhe havia comprado um fósforo sequer; pessoa alguma tinha-lhe dado algum dinheiro; com fome e frio, ela foi-se arrastando; pobre criancinha, ela era a imagem da miséria! Os flocos de neve caíam sobre os seus longos e loiros cabelos, que pendiam em cachos sobre seus ombros, mas ela não se importava.

Luzes brilhavam em todas as janelas, e havia um aroma saboroso de ganso assado; porque era véspera de Ano Novo - sim, lembrava-se disso. Numa esquina, entre duas casas, uma das quais projetava-se à frente da outra, ela encolheu-se, amontoada; puxou seus pezinhos para baixo de seu corpo, abraçando suas pernas, mas ela não podia evitar o frio; à casa não se atrevia a ir, pois não vendera fósforo algum, e não recebera um único centavo: certamente, seu pai a surraria; além disso, era quase tão frio em sua casa quanto ali, pois eles tinham somente o telhado para cobri-los, através do qual o vento uivava, embora os maiores buracos tivessem sido tampados com palha e trapos. Suas mãozinhas estavam quase congeladas com o frio. Ah! talvez um fósforo aceso pudesse ser bom, se ela conseguisse tirar um fósforo do monte e riscá-lo contra a parede, para aquecer seus dedos. Ela puxou um, e raassccc... , como ele faiscava à medida que queimava. Ele produziu uma luz cálida e clara, como uma velinha, enquanto ela segurava sua mão à volta dele. Realmente, era uma luz maravilhosa. Parecia, para a garotinha, que estava sentada junto a um grande forno de ferro, com pés e um ornamento em bronze polido. Como queimava o fogo! E parecia tão agradavelmente quente, que a criança alongava seus pés como se para aquecê-los, quando...Oh! A chama do fósforo apagou-se, o fogão desapareceu, e restou-lhe somente o fósforo, meio queimado, nas mãos.

Ela riscou outro fósforo na parede. Ele inflamou-se, e onde sua luz caía sobre a parede, esta tornava-se tão transparente quanto um véu, e ela podia ver o interior do aposento. A mesa estava coberta por uma toalha branca como a neve, sobre a qual estava um esplêndido serviço de jantar, e um ganso assado fumegante, recheado com maçãs e ameixas secas. E o que era ainda mais impressionante, o ganso pulou da travessa e caminhou pelo chão, com uma faca e um garfo em seu peito, na direção da garotinha. Então, o fósforo apagou-se, e só ficou a grossa, úmida e fria parede diante dela.

Ela acendeu mais um fósforo, e, logo, ela estava sentada sob uma linda árvore de natal. Ela era maior e mais lindamente decorada do que aquela que vira através da porta de vidro, da casa do mercador. Milhares de velas queimando sobre os galhos verdes, e imagens coloridas, como aquelas que observara nas vitrines, que dominavam todo o ambiente.  A pequenina esticou sua mão, na direção das imagens, e o fósforo apagou-se.

As luzes de Natal subiram cada vez mais alto, até que contemplaram a garotinha como as estrelas no céu. Ela avistou, então, uma estrela caindo, deixando para trás um rastro brilhante de fogo. "Alguém está morrendo.", pensou a garotinha, porque sua velha avó, a única pessoa que já a tinha amado, e que estava morta agora, dissera-lhe que, quando uma estrela cai, uma alma está indo para Deus.


Ela, novamente, riscou um fósforo na parede, e a luz brilhou a seu redor; naquele clarão, surgia sua velha avó, nítida e cintilante, mas, suave e amável na aparência. "Vovó!", gritou a pequenina, "Oh! Leve-me com você; eu sei que sumirá logo que o fósforo se apague; você desaparecerá como o forno quente, o ganso assado, e a grande, gloriosa árvore de natal." E ela apressou-se a acender todo o monte de fósforos que tinha na mão, pois ali ela desejava manter sua avó. E os fósforos faiscaram com uma luz que era mais clara do que a luz do meio-dia, e sua avó nunca parecera tão grande e tão bonita. Ela tomou a garotinha em seus braços, e ambas voaram para cima em brilho e felicidade, bem longe da terra, onde não havia frio, fome ou dor, pois elas estavam com Deus.


No início da manhã, lá jazia a pobre garotinha, com as bochechas pálidas e um sorriso no rosto, encostada na parede; ela morrera congelada na última noite do ano, e o sol do Ano Novo ergueu-se e brilhou sobre um pequeno cadáver! A criança achava-se sentada na rigidez da morte, segurando os fósforos em sua mão, muito dos quais estavam queimados. "Ela tentou aquecer-se.", disseram algumas pessoas. Ninguém imaginou as belas coisas que ela vira, nem em qual glória ela havia partido com sua avó, no dia de Ano Novo.

Hans Christian Andersen
A Pequena Vendedora de Fósforos ou A Menina dos Fósforos é um conto do poeta e escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. A história trata de sonhos e esperança de uma criança morrendo, e foi publicado pela primeira vez em 1845. 
Neste link http://elzaffreitasgmailcom.blogspot.com/2009/07/analise-do-conto-pequena-vendedora-de.html, encontra-se uma análise do conto, caso você tenha interesse.
Neste link https://archive.org/details/TheLittleMatchSeller1902, é possível assistir ao primeiro curta-metragem já produzido do conto.
E, neste último link, https://archive.org/search.php?query=little%20match%20girl, podem ser encontrados dados adicionais sobre o tema (em inglês), como vídeos, imagens e outras versões do mesmo.



Inspirados pelo conto, artistas criaram:
Escultura
Escultura
Vídeo-game 

Peça deTeatro 



Filme
























Nenhum comentário:

Postar um comentário