terça-feira, 30 de setembro de 2014

Urashima Tarô

Conta-se que há muito, muito, tempo atrás, na província japonesa de Tango, na costa do Japão, existia uma pequena aldeia de pescadores onde morava um jovem pescador chamado Urashima Tarô que, numa certa manhã, ao aproximar-se da praia, viu alguns garotos da aldeia maltratando uma tartaruga, batendo-lhe com varas e dando-lhe marteladas com uma concha enorme.
Urashima Tarô era um jovem de bom coração e tentou convencê-los a parar de judiar do animal, e, visto que não o ouviam, e serem eles apenas crianças levadas e travessas, resolveu trocar a tartaruga por outra coisa valiosa que lhes interessava. Assim foi feito e, desta forma, o jovem pescador conseguiu salvar o pobre animal. Depois, levou-o até as águas e devolveu-o ao mar.
Na manhã seguinte, Urashima Tarô voltou, como de costume, para pegar o seu barco e ir pescar e, quando estava bem longe da costa e pronto para iniciar a sua pescaria, ouviu que alguém o chamava. Ao voltar-se na direção da voz, reparou que era a tartaruga que ele havia salvado no dia anterior e que, em sinal de agradecimento, convidou-o para conhecer o Palácio do Rei Dragão do Mar.
O jovem pescador subiu nas costas da tartaruga, que o levou até as profundezas e, lá chegando, passou a mostrar-lhe todas as maravilhas do universo submarino, assim como levou-o até a presença do Rei em seu
palácio, onde Urashima Tarô foi recebido com todas as honras. Também conheceu a bela princesa e uma bela amizade entre eles nasceu.
Depois de alguns dias, porém, o jovem pescador começou a sentir saudades de sua família, de sua casa e, assim, pediu permissão para retornar. Poucos momentos antes de partir, a princesa presenteou-o com uma pequena arca, chamada tamatebako, e alertou-o a não abrir a caixa em hipótese alguma. Urashima pegou a arca e, novamente, de carona nas costas da tartaruga que ele salvara, voltou à praia.
Quando o jovem pescador retornou para a sua aldeia, depois de haver-se ausentado, começou a reparar que tudo estava diferente, mudado. Ele já não reconhecia o lugar e nem mesmo as pessoas que lá moravam. Ele, então, procurou um dos velhos moradores do local e perguntou-lhe sobre sua família: o velho contou-lhe que, há quase 300 anos atrás, havia um jovem chamado Urashima Tarô que fora visitar o Palácio do Rei Dragão, no fundo do mar, e nunca mais retornara.
O jovem pescador, ao perceber o que realmente lhe havia acontecido, voltou à praia para viver a sua solidão, quando se lembrou da pequena arca, presente da Princesa. Desobedecendo aos avisos de sua amiga, Urashima Tarô abriu a caixa e dela saiu uma fumaça branca que o envelheceu gradualmente, fazendo com que seus cabelos caíssem, sua barba branca crescesse e suas costas se encurvassem. Somente, então, Urashima Tarô percebeu que, naquela arca, estavam guardados todos os seus anos de vida.



O que a lenda representa ou tenta dizer-nos, é difícil de comentar, pois, cada um, provavelmente, fará a sua análise, que, talvez, diga respeito à vida como um bem precioso maior, ou à tartaruga, representando a longevidade, ou ainda, que a história diz respeito à obediência e aos alertas, a importância do seu lar, do seu tempo, a fonte da juventude, enfim, cada um fará dela o instrumento de sua imaginação.
Urashima Tarô é uma fábula japonesa, e sua criação remonta ao chamado Período Nara, da história japonesa, que corresponde, para nós, aos anos entre 710 e 794 d.C., período esse que foi caracterizado pela agricultura natural que cercava as aldeias e pela maioria de seus moradores seguirem uma religião baseada na adoração dos espíritos naturais e seus ancestrais. De certa maneira, a lenda está muito ligada à espiritualidade natural do reino animal e nas virtudes.
Apesar disso, essa história somente ficou popular, muitos anos mais tarde, no período Muromachi ou período Ashikaga, que corresponde aos nossos anos entre 1337 e 1573, período em que o Japão foi governado pelo xogunato Muromachi ou Ashikaga. Esse período findou, somente, quando o último xogum Ashikaga foi expulso por Oda Nobunaga, e foi marcado pelos conflitos e confrontos entre os defensores do Imperador Go-Daigo.
Foi nessa época que as lendas de Urashima Tarô passaram a ser amplamente conhecidas ao serem ilustradas no chamado "Conto Otogizôshi", que são um grupo de 350 narrativas em prosa. Eram histórias ilustradas curtas, de autoria desconhecida, mas que formam um dos gêneros literários representativos da cultura medieval japonesa. Essas ilustrações voltaram a ser publicadas, posteriormente, por volta de 1725.
Segundo alguns autores, algumas crônicas japonesas, denominadas de "Nihon Shoki" ou as poesias existentes numa antiga coleção denominada "Manyõshu" ou "Coleção das Dez Mil Folhas", entre outras fontes, podem conter, também, referências a essa lenda, ainda que referidas como Urashimako, embora essa teoria seja, também, contestada por outros autores.
Igualmente, cita-se, que o nome Urashimako foi alterado para Urashima Tarô, porque, na linguagem japonesa, o sufixo ”ko” é utilizado para denominar uma criança de ambos os sexos, e, durante a era medieval, o sufixo “ko” ficou restrito à aplicação em nomes femininos, e, portanto, transformado em "tarô", que significa "grande juventude", relativa a um elemento masculino.
A história ou lenda de Urashima Tarô tem semelhanças impressionantes com contos de outras culturas, como a lenda "Oisín" narrada na Irlanda e a lenda chinesa conhecida como "Ranka", que datam de mais de mil anos, de autor desconhecido, que, também, foi referenciado, pela primeira vez, no Japão, num poema da antiguidade pelo poeta japonês Kino no Tomonori, ao retornar da China.
Com o passar do tempo, como acontece com a maioria das lendas, foram surgindo muitas outras versões, diferentes desta fábula. Algumas dessas versões contam a história contendo até três arcas; em outras, o jovem pescador é arrastado por uma tempestade, mas, antes disso, salva uma tartaruga; ou que, ao invés de comprar a tartaruga, ele a pesca sem querer e a devolve ao mar; e, também, aquela em que Urashima morre no processo de seu envelhecimento e que seu corpo transforma-se em pó, entre outras formas de contar a mesma história.
Curiosamente, num santuário na costa ocidental da península de Tango, num lugarejo chamado Urashima Jinja, é guardado um antigo documento em que é descrito um homem chamado Urashimako, que deixou a terra no ano 478 d.C. e foi fazer uma visita a um lugar onde as pessoas simplesmente não morriam, retornando, somente, no ano de 825 d.C., com uma "tamatebako", que é uma espécie de "origami", uma dobradura em papel, em que se forma uma caixa ou um cubo e que possui uma parte que serve como abertura do mesmo.
A curiosidade de Urashimako fez com ele abrisse o "tamatebako", quando uma fumaça branca saiu de dentro e o transformou num homem velho. Conta-se que, baseado nesta lenda, o Imperador Junna ordenou a construção de um santuário para comemorar a estranha viagem de Urashimako, bem como para abrigar o "tamatebako" e o espírito de Urashimako. O imperador Junna reinou entre os anos 810 e 823 d.C., quando abdicou do trono e foi sucedido pelo Imperador Ninmyo.
Estátua de Urashima Taro
próxima às margens da praia
da cidade de Mitoyo.
Atualmente, próximo às margens da praia da cidade de Mitoyo, em Kagawa, no Japão, existe uma estátua de Urashima Tarô. Assim como a lenda tornou-se, na atualidade, cultura popular japonesa, influenciando diversas obras de ficção, séries e filmes, teatro de sombras, bem como mangá e anime, e, mais recentemente, até os jogos de vídeo game. O mais antigo anime conhecido, narrando a lenda de Urashima Tarô data de 1918, e, atualmente, a história serve ou é usada para explicar um aspecto da relatividade no Guia Mangá de Relatividade.


Anime produzido por Seitaro Kitayama em 1918 que foi descoberto num loja de antiguidades em Osaka em março de 2008.

A lenda de Urashima Tarô também chegou ao ocidente, onde passou a ser muito difundida, assim como também serviu de base para o conto "Another Story", que foi publicado na coletânea de contos "A Fisherman of the Inland Sea", da escritora norte-americana Ursula K. Le Guin, publicado em 1994, do gênero ficção científica.
No Brasil, devido a grande colônia japonesa aqui radicada e seus descendentes, a lenda de Urashima Tarô foi aproveitada numa campanha publicitária para a Varig, nos anos 70, com a finalidade de promover os voos diretos entre o Rio de Janeiro e Tóquio, produzida pela Lynxfilm, numa criação de Ruy Perotti, cuja canção tema tornou-se famosa e interpretada pela cantora brasileira, de origem japonesa, e apresentadora de um programa para a colônia japonesa, Rosa Miyake, propaganda essa de que muita gente ainda se lembra.


Essas informações foram retiradas do site http://www.tvsinopse.kinghost.net/art/u/urashima-taro.htm. Acesse o link e veja o artigo rico em imagens.
Neste link http://www.goldendream.com.br/ler_noticia.php?id=256, é possível analisar a lenda por outro ângulo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A Pequena Vendedora de Fósforos

Estava terrivelmente frio, nevando, e começava a escurecer; era, também, a última noite do ano, véspera de Ano Novo. No frio e na escuridão, passou na rua uma pobre garotinha, com a cabeça descoberta e pés descalços; sim, ela certamente tinha chinelos quando saiu de casa. Mas o que podia fazer? Os chinelos eram muito grandes , haviam pertencido a sua mãe, de tão grande que eram, e perdera-os, pouco antes, quando atravessara a rua, correndo, para evitar duas carruagens que passavam velozmente; um chinelo estava longe de ser encontrado e o outro fora levado por  um menino, que disse poder usá-lo como berço, quando tivesse filhos. Assim, a garotinha caminhava sobre seus pezinhos nus, que, por causa do frio, estavam bem vermelhos e azuis. Em um velho avental, carregava um pacote de fósforos, e tinha um monte deles em sua mão; durante todo o dia, ninguém lhe havia comprado um fósforo sequer; pessoa alguma tinha-lhe dado algum dinheiro; com fome e frio, ela foi-se arrastando; pobre criancinha, ela era a imagem da miséria! Os flocos de neve caíam sobre os seus longos e loiros cabelos, que pendiam em cachos sobre seus ombros, mas ela não se importava.

Luzes brilhavam em todas as janelas, e havia um aroma saboroso de ganso assado; porque era véspera de Ano Novo - sim, lembrava-se disso. Numa esquina, entre duas casas, uma das quais projetava-se à frente da outra, ela encolheu-se, amontoada; puxou seus pezinhos para baixo de seu corpo, abraçando suas pernas, mas ela não podia evitar o frio; à casa não se atrevia a ir, pois não vendera fósforo algum, e não recebera um único centavo: certamente, seu pai a surraria; além disso, era quase tão frio em sua casa quanto ali, pois eles tinham somente o telhado para cobri-los, através do qual o vento uivava, embora os maiores buracos tivessem sido tampados com palha e trapos. Suas mãozinhas estavam quase congeladas com o frio. Ah! talvez um fósforo aceso pudesse ser bom, se ela conseguisse tirar um fósforo do monte e riscá-lo contra a parede, para aquecer seus dedos. Ela puxou um, e raassccc... , como ele faiscava à medida que queimava. Ele produziu uma luz cálida e clara, como uma velinha, enquanto ela segurava sua mão à volta dele. Realmente, era uma luz maravilhosa. Parecia, para a garotinha, que estava sentada junto a um grande forno de ferro, com pés e um ornamento em bronze polido. Como queimava o fogo! E parecia tão agradavelmente quente, que a criança alongava seus pés como se para aquecê-los, quando...Oh! A chama do fósforo apagou-se, o fogão desapareceu, e restou-lhe somente o fósforo, meio queimado, nas mãos.

Ela riscou outro fósforo na parede. Ele inflamou-se, e onde sua luz caía sobre a parede, esta tornava-se tão transparente quanto um véu, e ela podia ver o interior do aposento. A mesa estava coberta por uma toalha branca como a neve, sobre a qual estava um esplêndido serviço de jantar, e um ganso assado fumegante, recheado com maçãs e ameixas secas. E o que era ainda mais impressionante, o ganso pulou da travessa e caminhou pelo chão, com uma faca e um garfo em seu peito, na direção da garotinha. Então, o fósforo apagou-se, e só ficou a grossa, úmida e fria parede diante dela.

Ela acendeu mais um fósforo, e, logo, ela estava sentada sob uma linda árvore de natal. Ela era maior e mais lindamente decorada do que aquela que vira através da porta de vidro, da casa do mercador. Milhares de velas queimando sobre os galhos verdes, e imagens coloridas, como aquelas que observara nas vitrines, que dominavam todo o ambiente.  A pequenina esticou sua mão, na direção das imagens, e o fósforo apagou-se.

As luzes de Natal subiram cada vez mais alto, até que contemplaram a garotinha como as estrelas no céu. Ela avistou, então, uma estrela caindo, deixando para trás um rastro brilhante de fogo. "Alguém está morrendo.", pensou a garotinha, porque sua velha avó, a única pessoa que já a tinha amado, e que estava morta agora, dissera-lhe que, quando uma estrela cai, uma alma está indo para Deus.


Ela, novamente, riscou um fósforo na parede, e a luz brilhou a seu redor; naquele clarão, surgia sua velha avó, nítida e cintilante, mas, suave e amável na aparência. "Vovó!", gritou a pequenina, "Oh! Leve-me com você; eu sei que sumirá logo que o fósforo se apague; você desaparecerá como o forno quente, o ganso assado, e a grande, gloriosa árvore de natal." E ela apressou-se a acender todo o monte de fósforos que tinha na mão, pois ali ela desejava manter sua avó. E os fósforos faiscaram com uma luz que era mais clara do que a luz do meio-dia, e sua avó nunca parecera tão grande e tão bonita. Ela tomou a garotinha em seus braços, e ambas voaram para cima em brilho e felicidade, bem longe da terra, onde não havia frio, fome ou dor, pois elas estavam com Deus.


No início da manhã, lá jazia a pobre garotinha, com as bochechas pálidas e um sorriso no rosto, encostada na parede; ela morrera congelada na última noite do ano, e o sol do Ano Novo ergueu-se e brilhou sobre um pequeno cadáver! A criança achava-se sentada na rigidez da morte, segurando os fósforos em sua mão, muito dos quais estavam queimados. "Ela tentou aquecer-se.", disseram algumas pessoas. Ninguém imaginou as belas coisas que ela vira, nem em qual glória ela havia partido com sua avó, no dia de Ano Novo.

Hans Christian Andersen
A Pequena Vendedora de Fósforos ou A Menina dos Fósforos é um conto do poeta e escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. A história trata de sonhos e esperança de uma criança morrendo, e foi publicado pela primeira vez em 1845. 
Neste link http://elzaffreitasgmailcom.blogspot.com/2009/07/analise-do-conto-pequena-vendedora-de.html, encontra-se uma análise do conto, caso você tenha interesse.
Neste link https://archive.org/details/TheLittleMatchSeller1902, é possível assistir ao primeiro curta-metragem já produzido do conto.
E, neste último link, https://archive.org/search.php?query=little%20match%20girl, podem ser encontrados dados adicionais sobre o tema (em inglês), como vídeos, imagens e outras versões do mesmo.



Inspirados pelo conto, artistas criaram:
Escultura
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Vídeo-game 

Peça deTeatro 



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